Todas as pessoas têm suas canções favoritas. E para isto
há todo tipo de música disponível neste planeta e nos dias de hoje a música
étnica está cada vez mais globalizada, assim como tudo mais ao seu redor. Há
aquelas canções que lhe atraem pelo ritmo e/ou melodia e há aquelas que parecem
que foram escritas para você. Pode-se dizer muito sobre uma pessoa de acordo
com as músicas que ela aprecia. Para mim esse assunto é desafiador e um teste
para meus preconceitos, pois em certos momentos eu tenho que controlar muito
meus pensamentos. Aquele momento em que estou na fila do supermercado e o
celular da garota da frente toca tendo como campainha “Eu quero tchu, eu quero
tchá...” é o momento do teste, o momento que devo dizer a mim mesmo “Calma,
Julian... não julgue a menina.”. É difícil, claro, mas penso eu que muitas das
músicas que ouço podem soar horríveis para ela. Mas o assunto que quero abordar
é outro, antes que me taquem tomates.
Num devido momento da vida,
onde tudo parece estar desabando e o chão já não parece tão firme, é o momento
que o ser humano é absolutamente imprevisível. Algumas pessoas aliviam seu
desespero em prazeres carnais, outros enchendo a cara, outros xingando quem
apareça na frente, outros chutando o cachorro, outros indo à igreja, outros
ligando para um amigo aos prantos... é este o momento de se render à dor, seja
lá qual ela for: dor do amor, da perda, da decepção...
No meu caso, eu encontro alívio em filmes, onde eu possa
escapar na vida de outras pessoas, em outras estórias e me ponho como
espectador ao invés de protagonista do mundo; escrevendo, principalmente para o
blog; na leitura, quando consigo me concentrar; e na música. Eu busco as
respostas nas músicas. Por que isto aconteceu comigo? Por que eu fiz aquilo? Por que fizeram aquilo outro comigo? Por que me sinto aprisionado? As respostas
estão lá, nas canções. Eu particularmente tive meu momento de rendição no ano passado (2012), numa situação que parecia me rasgar a alma. Vi toda a minha capacidade de
ser companheiro ser descartada como insuficiente ou inútil. Enquanto o momento
de rendição me mantinha desolado aos prantos deitado na cama encarando o teto e
as imagens em flashbacks que se formavam nele como se saíssem de um retroprojetor,
o iPod fazia uma trilha sonora de tudo aquilo com uma canção após a outra.
Escolhi um álbum e dele duas canções que se interligam me apresentaram o máximo
de alívio que uma canção pode lhe propor. Como um velho sábio ou um avô
conselheiro.
A primeira se chama ironicamente Momento de Rendição (Moment
of Surrender) e a segunda Ligador Desconhecido (Unknown Caller), ambas do U2
gravadas em 2009. A primeira é o retrato do sofrimento do personagem e a
segunda é o alívio.
Moment of Surrender descreve sentimentos complexos em
figuras de linguagem. Sentimentos bem humanos. Sutis, mas sempre presentes.
A primeira é: se você brinca com o fogo, um dia o fogo
acaba brincando com você. Eu brinquei. Brinquei de jogo da vida, de ser pai,
marido, irmão, namorado, de viver uma daquelas histórias dos filmes... com uma
pessoa que queria brincar de outra coisa: banco imobiliário. O fogo então
brincou comigo e quando eu estava para me queimar, deixei o jogo.
Você se amarra,
pensando que vai correr livre. Acredita no amor, mas em alguns momentos duvida
que o amor acredite em você. Eu me lembro de ir ao caixa eletrônico dois dias
antes do meu primeiro aniversário de casamento e não tinha muito dinheiro na
conta. Era fim de mês. Fiz um empréstimo no maior valor disponível para dar o
presente no maior valor que poderia dar. Mas dois dias depois, ganhei uma
agressão àquele sentimento. Eu ficava no metrô olhando as estações passarem me
perguntando no que valia eu acreditar no amor se o amor não acreditava em mim. As
respostas não vinham.
Em outro momento da música é descrito o sentimento de
estar com o corpo e alma em ritmos diferentes, de existir algo errado que você
não sabe o que é. O personagem se ajoelha, se rende, simplesmente ao ver seu
reflexo no caixa eletrônico. Ao olhar para o si mesmo. Ajoelhado num momento,
sozinho, passando despercebido, e alheio ao resto do mundo. Enxergando além do
alcance dos olhos: para dentro. E encontrando lá a doação sem necessidade. Eu
ouvia a letra e encontrava os momentos que se somaram em tristeza e me levaram
até aquele instante, deitado na cama com os olhos inchados. As respostas para
as minhas questões estavam comigo mesmo. Elas seriam reveladas ao desembaralhar
e montar aquele quebra-cabeça de mil peças de pequenos momentos, dentro de mim.
A canção seguinte inicia com aquele personagem em
rendição, às 3:33 da madrugada com a balbúrdia da aflição o mantendo acordado.
Era eu durante todo Maio, Junho e Julho de 2012. O curioso é que “Unknown
Caller” começa com a frase ambígua “Sunshine”, que poderia ser uma homofonia
para “Son shine” (brilhe, filho), o que faria muito sentido no contexto de
redenção da música. Abaixo o vídeo com “Unknown Caller”.
Eu estava perdido entre a meia-noite e o amanhecer
Num lugar sem conseqüência ou companhia
Eram 3:33 quando os números caíram do relógio
Fazendo ligações sem sinal algum
Foi estabelecido na música o intervalo da agonia desse
personagem, “perdido entre a meia-noite e o amanhecer”. Então, às 3:33, quando
as horas de agonia avançam e o desespero parece tomar conta, ele fez uma
“chamada” misteriosa que terminou salvando-o. Mas,
pela frase "sem nenhum sinal”, parece que a chamada não foi respondida de
imediato. Assim como bem sei, as coisas não acontecem no momento que eu
quero, acontecem quando DEVEM acontecer. O nosso tempo é relativo, como diria
Einstein. Só Deus sabe quando deve responder e revelar seus “segredos”. Sabe-se que a dor, por exemplo,
é um ótimo artesão do coração, que quebra o coração frio do homem.
Em um devido momento instruções para se
livrar daquele momento de desolação vieram em formas de comandos por SMS:
Vá, grite alto,
erga-se
Escape de si
mesmo e da gravidade
Ouça-me, pare
de falar para que eu possa falar
Silêncio agora
Encerre o programa e mova para a lixeira
Então o
interlocutor manda o personagem externar o que está sentindo (shout it out) e
não desistir da sua luta, não desistir de enfrentar essa situação que lhe
afligi. E prossegue dizendo que ele deve escapar dele mesmo, escapar dessa dor,
ou compulsão, que o corrói e o domina.
Outra forma de interpretar a frase
“Escape yourself” é entendendo que, muitas vezes, nosso maior inimigo somos nós
mesmos. Em momentos difíceis muitos gostam de posar de vítima, de coitado, e
ficam esperando uma figura materna que os acalentem e afague o ego. Outros
esperam que Deus faça tudo, como um pai que superprotege seus filhos. Assim,
assumimos uma postura passiva e imatura diante dos problemas, de tal forma, que
se torna quase impossível contorná-los. Eu não sei em que descrição me
enquadro. Eu claramente me sentia injustiçado, pisado... mas ao mesmo tempo me
sentia culpado por tudo. Procurava em outras pessoas a defesa contra o inimigo
da dor enquanto meu inimigo era eu mesmo e as coisas que eu pensava. Mas na
canção a mensagem intervém firmemente ordenando que ele escape dele mesmo, de
seu querer, de seus desejos e até da gravidade, ou seja, escape dessa
consciência adoecida e lute por sua sobrevivência, mesmo que ela pareça tão
difícil quanto escapar da gravidade.
De madrugada, sentindo a brisa que vinha
da rua e ouvindo aquela música uma frase causou um certo impacto sob mim e
minhas atitudes e pensamentos: “Ouça-me,
pare de falar para que eu possa falar. Silêncio agora” Aquelas muitas vozes cantavam o que eu deveria estar
fazendo: Calar minha boca e minha mente e ouvir as respostas no dia-a-dia, nos
sinais que nos chegam a todo momento e nas palavras que chegavam à mim. Era
hora de eu ouvir e para de me lamentar. Então a canção ordena que encerre essa
neura e pegue todos esses pensamentos doentios e jogue-os na lixeira, limpando
a mente para que seja possível recomeçar e vencer.
Eu estava no
ponto de origem
No limite do universo conhecido, onde eu queria estar
Eu havia dirigido até o local do acidente
E eu sentei lá, esperando por mim
Ouvindo
esses versos me parecia que o personagem, mediante a situação desoladora em que
se encontrava, fechou os olhos e tentou fugir de seus problemas, fazendo uma
viagem para bem longe do caos que o cercava e lhe causava dor. Viagem que pode
ter sido aquelas lembranças que assombravam a mim também. Era a cena do
acidente, do qual eu me sentava e esperava por mim para que me explicasse onde
tudo deu errado. Era a minha fuga. A fuga do que achamos que não podemos
superar é uma reação natural da alma humana, por isso o personagem disse que
queria estar no limiar do universo, o lugar mais longe que ele pode conceber. É onde adoramos nos esconder... bom,
alguns de nós se escondem em festas, bares e bobagens fúteis.
Reinicie o
sistema e a si mesmo
Você está livre
para ir
Grite de
alegria, se tiver a chance
Senha, você,
entre aqui, agora mesmo
Você sabe o seu
nome, então escreva
Ouça-me, pare
de falar, para que eu possa falar
Silêncio agora
Não se mova e
não diga nada
Afinal, recomeçar era fácil... na
música estava figurado como reiniciar. Eu precisava reiniciar o sistema e a mim
mesmo. Recomeçar meus passos, minha rotina, e a mim mesmo, meus pensamentos,
meu comportamento. Eu estaria assim livre para ir. Jamais deixar de reconhecer
os momentos de felicidade, gritando de alegria se assim tiver a chance. O “nome” e a “senha” - a aceitação da mensagem - permitem que
uma nova comunicação se concretize, um novo relacionamento se estabeleça. Um
relacionamento íntimo de amor, paz e liberdade comigo mesmo. Sempre me
lembrando quando devo me calar e ouvir. Acalmar a mente e apenas observas as
coisas ao meu redor. Deixar a vida levar, de vez em quando e parar de querer
estar sempre no controle, fazendo e falando demais!