27/04/2013

3:33


           Todas as pessoas têm suas canções favoritas. E para isto há todo tipo de música disponível neste planeta e nos dias de hoje a música étnica está cada vez mais globalizada, assim como tudo mais ao seu redor. Há aquelas canções que lhe atraem pelo ritmo e/ou melodia e há aquelas que parecem que foram escritas para você. Pode-se dizer muito sobre uma pessoa de acordo com as músicas que ela aprecia. Para mim esse assunto é desafiador e um teste para meus preconceitos, pois em certos momentos eu tenho que controlar muito meus pensamentos. Aquele momento em que estou na fila do supermercado e o celular da garota da frente toca tendo como campainha “Eu quero tchu, eu quero tchá...” é o momento do teste, o momento que devo dizer a mim mesmo “Calma, Julian... não julgue a menina.”. É difícil, claro, mas penso eu que muitas das músicas que ouço podem soar horríveis para ela. Mas o assunto que quero abordar é outro, antes que me taquem tomates.


            
Num devido momento da vida, onde tudo parece estar desabando e o chão já não parece tão firme, é o momento que o ser humano é absolutamente imprevisível. Algumas pessoas aliviam seu desespero em prazeres carnais, outros enchendo a cara, outros xingando quem apareça na frente, outros chutando o cachorro, outros indo à igreja, outros ligando para um amigo aos prantos... é este o momento de se render à dor, seja lá qual ela for: dor do amor, da perda, da decepção...

               No meu caso, eu encontro alívio em filmes, onde eu possa escapar na vida de outras pessoas, em outras estórias e me ponho como espectador ao invés de protagonista do mundo; escrevendo, principalmente para o blog; na leitura, quando consigo me concentrar; e na música. Eu busco as respostas nas músicas. Por que isto aconteceu comigo? Por que eu fiz aquilo? Por que fizeram aquilo outro comigo? Por que me sinto aprisionado? As respostas estão lá, nas canções. Eu particularmente tive meu momento de rendição no ano passado (2012), numa situação que parecia me rasgar a alma. Vi toda a minha capacidade de ser companheiro ser descartada como insuficiente ou inútil. Enquanto o momento de rendição me mantinha desolado aos prantos deitado na cama encarando o teto e as imagens em flashbacks que se formavam nele como se saíssem de um retroprojetor, o iPod fazia uma trilha sonora de tudo aquilo com uma canção após a outra. Escolhi um álbum e dele duas canções que se interligam me apresentaram o máximo de alívio que uma canção pode lhe propor. Como um velho sábio ou um avô conselheiro.

                A primeira se chama ironicamente Momento de Rendição (Moment of Surrender) e a segunda Ligador Desconhecido (Unknown Caller), ambas do U2 gravadas em 2009. A primeira é o retrato do sofrimento do personagem e a segunda é o alívio.

        Moment of Surrender descreve sentimentos complexos em figuras de linguagem. Sentimentos bem humanos. Sutis, mas sempre presentes.
              A primeira é: se você brinca com o fogo, um dia o fogo acaba brincando com você. Eu brinquei. Brinquei de jogo da vida, de ser pai, marido, irmão, namorado, de viver uma daquelas histórias dos filmes... com uma pessoa que queria brincar de outra coisa: banco imobiliário. O fogo então brincou comigo e quando eu estava para me queimar, deixei o jogo.
 Você se amarra, pensando que vai correr livre. Acredita no amor, mas em alguns momentos duvida que o amor acredite em você. Eu me lembro de ir ao caixa eletrônico dois dias antes do meu primeiro aniversário de casamento e não tinha muito dinheiro na conta. Era fim de mês. Fiz um empréstimo no maior valor disponível para dar o presente no maior valor que poderia dar. Mas dois dias depois, ganhei uma agressão àquele sentimento. Eu ficava no metrô olhando as estações passarem me perguntando no que valia eu acreditar no amor se o amor não acreditava em mim. As respostas não vinham.
               Em outro momento da música é descrito o sentimento de estar com o corpo e alma em ritmos diferentes, de existir algo errado que você não sabe o que é. O personagem se ajoelha, se rende, simplesmente ao ver seu reflexo no caixa eletrônico. Ao olhar para o si mesmo. Ajoelhado num momento, sozinho, passando despercebido, e alheio ao resto do mundo. Enxergando além do alcance dos olhos: para dentro. E encontrando lá a doação sem necessidade. Eu ouvia a letra e encontrava os momentos que se somaram em tristeza e me levaram até aquele instante, deitado na cama com os olhos inchados. As respostas para as minhas questões estavam comigo mesmo. Elas seriam reveladas ao desembaralhar e montar aquele quebra-cabeça de mil peças de pequenos momentos, dentro de mim.

            A canção seguinte inicia com aquele personagem em rendição, às 3:33 da madrugada com a balbúrdia da aflição o mantendo acordado. Era eu durante todo Maio, Junho e Julho de 2012. O curioso é que “Unknown Caller” começa com a frase ambígua “Sunshine”, que poderia ser uma homofonia para “Son shine” (brilhe, filho), o que faria muito sentido no contexto de redenção da música. Abaixo o vídeo com 
“Unknown Caller”.




Eu estava perdido entre a meia-noite e o amanhecer
Num lugar sem conseqüência ou companhia
Eram 3:33 quando os números caíram do relógio
Fazendo ligações sem sinal algum


             Foi estabelecido na música o intervalo da agonia desse personagem, “perdido entre a meia-noite e o amanhecer”. Então, às 3:33, quando as horas de agonia avançam e o desespero parece tomar conta, ele fez uma “chamada” misteriosa que terminou salvando-o. Mas, pela frase "sem nenhum sinal”, parece que a chamada não foi respondida de imediato. Assim como bem sei, as coisas não acontecem no momento que eu quero, acontecem quando DEVEM acontecer. O nosso tempo é relativo, como diria Einstein. Só Deus sabe quando deve responder e revelar seus “segredos”. Sabe-se que a dor, por exemplo, é um ótimo artesão do coração, que quebra o coração frio do homem.
Em um devido momento instruções para se livrar daquele momento de desolação vieram em formas de comandos por SMS:

Vá, grite alto, erga-se
Escape de si mesmo e da gravidade
Ouça-me, pare de falar para que eu possa falar
Silêncio agora

Encerre o programa e mova para a lixeira


            Então o interlocutor manda o personagem externar o que está sentindo (shout it out) e não desistir da sua luta, não desistir de enfrentar essa situação que lhe afligi. E prossegue dizendo que ele deve escapar dele mesmo, escapar dessa dor, ou compulsão, que o corrói e o domina. 
          Outra forma de interpretar a frase “Escape yourself” é entendendo que, muitas vezes, nosso maior inimigo somos nós mesmos. Em momentos difíceis muitos gostam de posar de vítima, de coitado, e ficam esperando uma figura materna que os acalentem e afague o ego. Outros esperam que Deus faça tudo, como um pai que superprotege seus filhos. Assim, assumimos uma postura passiva e imatura diante dos problemas, de tal forma, que se torna quase impossível contorná-los. Eu não sei em que descrição me enquadro. Eu claramente me sentia injustiçado, pisado... mas ao mesmo tempo me sentia culpado por tudo. Procurava em outras pessoas a defesa contra o inimigo da dor enquanto meu inimigo era eu mesmo e as coisas que eu pensava. Mas na canção a mensagem intervém firmemente ordenando que ele escape dele mesmo, de seu querer, de seus desejos e até da gravidade, ou seja, escape dessa consciência adoecida e lute por sua sobrevivência, mesmo que ela pareça tão difícil quanto escapar da gravidade.
           De madrugada, sentindo a brisa que vinha da rua e ouvindo aquela música uma frase causou um certo impacto sob mim e minhas atitudes e pensamentos: “Ouça-me, pare de falar para que eu possa falar. Silêncio agora” Aquelas muitas vozes cantavam o que eu deveria estar fazendo: Calar minha boca e minha mente e ouvir as respostas no dia-a-dia, nos sinais que nos chegam a todo momento e nas palavras que chegavam à mim. Era hora de eu ouvir e para de me lamentar. Então a canção ordena que encerre essa neura e pegue todos esses pensamentos doentios e jogue-os na lixeira, limpando a mente para que seja possível recomeçar e vencer. 

Eu estava no ponto de origem

No limite do universo conhecido, onde eu queria estar

Eu havia dirigido até o local do acidente

E eu sentei lá, esperando por mim


            Ouvindo esses versos me parecia que o personagem, mediante a situação desoladora em que se encontrava, fechou os olhos e tentou fugir de seus problemas, fazendo uma viagem para bem longe do caos que o cercava e lhe causava dor. Viagem que pode ter sido aquelas lembranças que assombravam a mim também. Era a cena do acidente, do qual eu me sentava e esperava por mim para que me explicasse onde tudo deu errado. Era a minha fuga. A fuga do que achamos que não podemos superar é uma reação natural da alma humana, por isso o personagem disse que queria estar no limiar do universo, o lugar mais longe que ele pode conceber. É onde adoramos nos esconder... bom, alguns de nós se escondem em festas, bares e bobagens fúteis.



Reinicie o sistema e a si mesmo
Você está livre para ir
Grite de alegria, se tiver a chance
Senha, você, entre aqui, agora mesmo
Você sabe o seu nome, então escreva
Ouça-me, pare de falar, para que eu possa falar
Silêncio agora
Não se mova e não diga nada

            Afinal, recomeçar era fácil... na música estava figurado como reiniciar. Eu precisava reiniciar o sistema e a mim mesmo. Recomeçar meus passos, minha rotina, e a mim mesmo, meus pensamentos, meu comportamento. Eu estaria assim livre para ir. Jamais deixar de reconhecer os momentos de felicidade, gritando de alegria se assim tiver a chance. O “nome” e a “senha” - a aceitação da mensagem - permitem que uma nova comunicação se concretize, um novo relacionamento se estabeleça. Um relacionamento íntimo de amor, paz e liberdade comigo mesmo. Sempre me lembrando quando devo me calar e ouvir. Acalmar a mente e apenas observas as coisas ao meu redor. Deixar a vida levar, de vez em quando e parar de querer estar sempre no controle, fazendo e falando demais!

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